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Livros. Autores. Críticas. Sugestões.

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15.10.21

Somos todos filhos de mil homens e de mil mulheres

Carolina Fonseca Bento

Com Valter Hugo Mãe encontrei a minha casa literária. Com isto quero dizer que descobri um autor que escreveu, não um, mas dois livros que encontraram um lugar direto para o meu coração. Estas duas obras ('A máquina de fazer espanhóis' e 'O filho de mil homens') entraram sem permissão na minha vida, mas, desde a primeira linha, deixaram-me completamente prendida aos seus encantos.

“Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade, como se tivesse apenas metade dos olhos, metade do peito e metade das pernas, metade da casa e dos talheres, metade dos dias, metade das palavras para se explicar às pessoas. Via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía.” ('O filho de mil homens' de Valter Hugo Mãe)

Com O filho de mil homens (Porto Editora), segundo livro que leio do escritor, Mãe construiu um universo maravilhoso cheio de personagens incríveis que, de todas as formas e mais algumas, encontraram o amor. Seja o amor romântico, o amor paternal e, até, o amor próprio.

300x.jfifFotografia: 'O filho de mil homens' de Válter Hugo Mãe, Porto Editora

 

O livro começa com Crisóstomo, um pescador de 40 anos que nunca teve um filho nem nunca casou. Como não constituiu família, Crisóstomo deseja imenso a chegada de um filho e chega a perguntar a todos os que o conhecem se sabem de alguma criança sem família. E, quando o homem sonha, a obra nasce. No meio dessa busca, como por magia, surge Camilo na vida de Crisóstomo.

“Pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende.” ('O filho de mil homens', Valter Hugo Mãe)

Camilo é um rapaz de apenas 14 anos que vivia só com o avô, mas que, quando este morreu, ficou totalmente sozinho durante 20 dias na casa onde ambos viviam. Quando Camilo e Crisóstomo se encontram, os dois sabem que se pertencem um ao outro e que serão filho e pai adotivos para sempre.

“Nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor.” 

Mas o livro não se compõe apenas destas duas personagens. Temos Isaura, uma mulher que nunca teve o amor que mereceu na vida. Por tanto ter esperado por um amor correto e por tanto ter tentado corresponder às expectativas que a sociedade tem para a Mulher, Isaura desapareceu para dentro de si.

Para além disso, ainda temos Antonino e a mãe, Matilde. Mãe e filho têm uma relação extremamente complicada devido à homossexualidade do filho. A comunidade fechada onde vivem é homofóbica, não aceita a diferença e refugia-se numa falsa religiosidade para justificar as suas atitudes discriminatórias.

“O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais as nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.” ('O filho de mil homens', Valter Hugo Mãe)

Valter Hugo Mãe tem a capacidade de refletir situações mundanas – que normalmente não têm especial importância – e torná-las nas ações e acontecimentos mais significativos. O leitor consegue relacionar-se com as personagens de uma forma tão natural como reencontrar um velho amigo. Há sempre qualquer coisa de nós em cada personagem que Mãe cria.

No fundo, este livro serve para nos mostrar que o amor surge de várias formas. O amor entre marido e mulher ou entre um pai e um filho não tem de ser o que achamos como a ‘norma’. Porque não há regras no amor. O amor é irracional, é essa a sua essência. O amor não tem sentido, mas – ou talvez justamente por isso – é a melhor coisa que temos na vida.

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